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Da cor do mar

Esta morada respeita o precioso lugar que ocupa

 

[img0]Arquiteto: Mauro Munhoz
Área: 160 m2
Localização: Paraty, RJ
Por que é ecológico: valoriza a cultura local, tem energia solar, captação de água da chuva, fossa séptica e luz natural.

Mão-de-obra local é valorizada no projeto
Num recanto remoto entre a mata Atlântica e o mar sereno do litoral do Rio de Janeiro, repousa esta casa azul. Trata-se de um projeto de reforma do arquiteto paulista Mauro Munhoz, que se inspira na cidade de Paraty, cujo charme vem da confluência da beleza natural com a graça das edificações coloniais do século 18, construídas com o ouro de Minas Gerais que por ali passava rumo a Portugal. Com suas paredes sólidas, a morada simboliza um princípio que Munhoz se propõe a seguir: "Que ela seja uma solução para as pessoas que vão viver ali, para aquelas que já habitam a região e para o lugar que vai ocupar". Eis a síntese de uma construção sustentável, que respeita o pedaço de chão que ocupa. Esse princípio também está nos recursos construtivos: o principal material utilizado é a madeira, matéria-prima renovável. Há soluções para uso racional da água, da luminosidade natural e da energia solar.

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A opção por desenhos que remetem aos traços da arquitetura local também faz parte dessa lista. Janelas, portas e forro, por exemplo, lembram a cidade histórica, uma paixão antiga dos proprietários, e ainda resgatam os conhecimentos técnicos das pessoas que ali cresceram. "Isso valoriza o 'fazer' tradicional e histórico", diz Munhoz. Está aí uma de suas regras douradas para criar uma casa sustentável: cuidar do tecido de relações sociais também tem a ver com a preservação do meio ambiente.

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Planta: antes da reforma, a casa consistia num bloco retangular de alvenaria. Agora envoltos por varandas, os ambientes se integram melhor à natureza:

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À noite, o cenário se ilumina com a luz captada de dia
A rede pública de energia ainda não chega a áreas remotas da baía de Paraty. Ninguém, entretanto, espera por isso. Muitas comunidades já contam com coletores fotovoltaicos (placas com células de silício que captam raios solares e os convertem em energia elétrica). Nesta casa não poderia ser diferente: toda a eletricidade provém da luz do sol, num sistema dimensionado pela Energia Pura, empresa da região.

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As células fotovoltaicas geram a energia e acumulam-na em baterias de 24 volts. Um sistema de conversão, por sua vez, a transforma para 110 volts. "Equipamentos e lâmpadas não precisam ser especiais", explica o arquiteto Mauro Munhoz. O sistema guarda outra vantagem: poderá funcionar interligado à rede pública quando esta alcançar a região. Por exemplo, num dia sem sol, se a carga das baterias estiver fraca, é possível abastecê-la pela rede. Mas só com o necessário. Caso no dia seguinte o sol volte a brilhar, devolve-se à rede o que foi tomado emprestado. E o relógio contador gira ao contrário. "Quando muita gente usar essa solução, a comunidade ficará autônoma", afirma Munhoz. Tal sistema já é comum em áreas rurais da Inglaterra. No Brasil, a maioria das concessionárias ainda não está pronta para trabalhar assim. "Mas, quando se criar a demanda, elas devem se adaptar", diz o arquiteto.

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O caminho da chuva
Se o dia estiver ensolarado, há energia de sobra. Por outro lado, quando o tempo vira, o fornecimento fica prejudicado. Nem por isso a chuva desagrada a moradora, pois há uma compensação: a água é coletada por um sistema projetado pelo próprio arquiteto. Para isso, uma calha coletora de concreto foi instalada na imensa pedra localizada no início do terreno. A água que escorre nessa superfície de 300 m2 segue para um filtro de pedriscos, no qual ficam detidas as folhas grandes de árvores. Dali, atinge a primeira caixa. As partículas então decantam e a água é bombeada para outro reservatório, de 10 mil litros, que alimenta a rede hidráulica e serve às bacias sanitárias, assim como às mangueiras utilizadas no jardim de ervas e na horta, localizada ao lado da cozinha. Automática, a bomba movida a energia solar faz com que a água circule e, assim, se mantenha em movimento.

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Tratamento completo
Além do aproveitamento e da economia, esse projeto também se preocupa em devolver a água utilizada limpa ao meio ambiente. Toda a água servida - inclusive aquela que vem da cozinha e passa por uma caixa que detém a gordura - segue para um tanque séptico. Os materiais pesados depositam-se no fundo e viram lodo - que se mineraliza por meio de um processo bacteriológico. Na saída, o resíduo vai para um pré-filtro de brita que retém os sólidos. Essa água se dirige então para um filtro biológico, de onde sai para o meio ambiente 90% tratada.

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Patrimônio histórico e ambiental, Paraty sobrevive através dos séculos
Um dos lugares mais encantadores da costa da região Sudeste do país, a 248 km do Rio de Janeiro e a 350 de São Paulo, Paraty proporciona uma delicada e sentimental viagem na história do país. A pequena cidade testemunhou os ciclos do ouro e do café e, nesse período, se estabeleceu com seu peculiar casario do século 18, que a coloca como patrimônio histórico nacional. A vila debruça-se, por sua vez, numa preciosa baía de águas calmas, com diversas ilhas e pequenas praias onde persistem reservas de mata Atlântica, manguezais e uma forte cultura caiçara - mantida por pequenas populações litorâneas daquela região que perpetuam heranças dos povos indígenas que habitavam o litoral. "Por isso, esta casa se fez construir de forma sustentável", explica o arquiteto Mauro Munhoz. Seus moradores sabem que preservar locais assim, de rara natureza e tradições culturais, é um desafio. Hoje, toda a baía de Paraty está inserida na Área de Preservação Ambiental do Caiuruçu, administrada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Qualquer compra de terreno na região e, sobretudo, a construção devem passar por consulta e licenciamento desse órgão federal.

Ficha técnica
Projeto: Mauro Munhoz Arquitetura
Construção: Paraty Engenharia
Energia solar: Energia Pura
Tratamento de efluentes: Rotogine
Jardins de ervas: Ana Clara Thomé

fotos: Victor Fernandes
Ilustração: Carlos Campoy
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